amelie-poulain-poster01t2 Leitura Psicológica

Tema: Aceitação da diferenças, pessoas sensíveis, aprender a sonhar.

Uma menina, filha única, privada do convívio de outras crianças e convivendo com os limites pessoais de seus pais, um distante e ausente (pai) e o outro irritável e neurótica (mãe) desenvolve um mundo muito particular e próprio. Desenvolve sua sensibilidade e senso de observação, sua imaginação e interage com o mundo através do filtro de sua particular visão de vida, das pessoas e de si mesma.

Adulta, ainda sensível e diferente fazia contato com as pessoas, mas não deixava que chegassem muito perto. Criava uma distancia segura com o meio e a realidade usual e vivia alheia mergulhada em seu mundo, até que com o episódio da pequena caixa de lembranças de um menino, e a presente emoção do agora adulto, viu uma possibilidade concreta de interferir no mundo das pessoas levando um pouquinho de seu próprio mundo de sonho, enfim sutilmente sem que percebessem, ensinando as pessoas a sonhar.

Ao final do filme ela se permite com a ajuda de um velho senhor, tocado por sua pureza e doçura, a um encontro amoroso onde finalmente enfrenta seus desafios. Apaixona-se por alguém semelhante a ela, um rapaz sensível igualmente marcado em sua infância.

É um filme que traz o tema da diferença e das pessoas não facilmente adaptadas. Pessoas que desenvolvem um mundo próprio para sobreviver e que ao fazê-lo desenvolvem apesar de todas as suas dores e dificuldades, habilidades e qualidades pouco usuais. Algumas ficam disfuncionais ou mesmo doentes outras no entanto buscam lidar com sua diferença e contribuir com o algo mais que brota a partir das dificuldades inerentes ao estado de sua diferença. Quantos são os diferentes, e pouco usuais em nossa sociedade? Quantos são os que se sentem pouco adaptados e até estrangeiros vindos de uma terra que são sabem onde é? Quantos são estes diferentes que se tornam artistas, dançarinos, músicos, idealistas, visionários, sonhadores que acabam muitas vezes sendo taxados ou realmente se tornam estranhos, excêntricos, lunáticos, rebeldes, esquisitos e alienados?

Se as diferenças fossem acolhidas é possível que funcionassem como complemento ou mesmo catalizadores de novas criações e de novas e brilhantes construções humanas. Se os pais acolhessem as diferenças de seus filhos e os ensinassem a se aperfeiçoar nelas e não a negá-las, é possível que teríamos adultos mais felizes e mais realizados com suas vidas.

Será que todos no fundo não são na realidade profundamente diferentes e únicos? Será que mesmo os que tiveram uma boa adaptação também no fundo não renunciaram a si mesmos desde novos para agradar aos outros? Será que no fundo do coração daqueles que se acham tão certos e dominantes, eles também não sentem, ou suspeitam que tudo isto é uma grande farsa?

Talvez tenhamos raiva da diferença externa por que ela nos lembra da nossa própria e de nossa solidão pessoal. Talvez a rejeição da diferença seja um claro temor de confrontarmos a nós mesmos e acolhermos que não somos perfeitos como gostaríamos.

Mas esquecemos que muitas vezes ao acolhermos a nossa imperfeição estamos acolhendo uma das mais preciosas de nossas qualidades, a nossa humanidade.

Por: Flávio Vervloet

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  1. Flávio. Gostei do seu texto e da ideia da divulgação deste filme que é, realmente, bárbaro. Um outro detalhe do filme é a forma como a personagem principal conduz a libertação do próprio pai, instigando a desprender-se do passado e seguir sua viagem (lembra do “anão viajante”??).
    Não bastasse isso, a trilha sonora é também excelente. Vale a pena a sua conferência.
    Abraços.

    • Marcos,
      Bem lembrado! Ela realmente teve uma ideia brilhante com o “anão viajante”, uma forma viviencial e muito criativa de ajudar seu pai.
      Gostei muito tambem da trilha sonora.
      Abraços

  2. Flávio, tudo que li sobre o que vc escreveu sobre sindrome de estrangeiro eu lembrei deste filme, pensei várias vezes em te falar…Achei aqui este comentário, tão perfeito. Texto maravilhoso e o comentário do Marcos sobre a ralação dela com o pai foi crucial para fechar.O que mais me chamou atenção foi a falta de habilidade dos pais para lidar com as diferenças dos seus filhos, isso é tão corriqueiro no mundo, como diria uma paciente minha:”É muito sofrido ser diferente…”

  3. Caro,

    A porta dos 60 anos e ‘olhando’ para trás,enxergo muito claramente o que se passou comigo,o que me fêz tornar…”asim,assada,cozida ou crua”

    O porque das decisões certas,as não certas,as equivocadas e erradas.

    Uma das que acertei:Me isolei o mais que pude.

    Quanto mais percebo,mais me encontro.

    Por isso gosto de ‘passear’ aqui.

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